Cristianismo Triunfalista

A Síndrome de Amazias

 

Amazias foi um dos reis de Judá, classificado de um modo geral como bom rei, embora não ótimo. Seu pai foi igual: bom, mas... sempre havia algo que, aos olhos de Deus, denegria o desempenho do seu reinado (2Re.14:3). Começou jovem (25 anos) e reinou 29 anos, o que pode ser considerado um período longo de reinado. Supõe-se, num balanço geral, que houve estabilidade no seu reinado, pois recebeu o reino de seu pai e quem reinou após ele foi seu filho. No entanto, quando analisamos os detalhes, parece que as coisas não foram tão bem assim e a sucessão deveu-se tão somente ao cumprimento da profecia de Deus a Davi, de que sempre haveria um descendente seu no trono.

Quando Amazias começou a reinar, seu pai havia acabado de ser assassinado. No entanto ele conseguiu, com humildade, estabilizar o país, que voltou a crescer e se fortalecer. Amazias até se animou a fazer uma guerra fora do seu território, contra os edomitas, no que foi vitorioso, alcançando bons lucros (despojos) dessa empreitada. Desconhecendo a bênção de Deus nessa batalha, ele se ensoberbeceu e se sentiu um grande guerreiro e estrategista. O passo seguinte foi desafiar o seu colega, Jeoás, rei em Samaria, para uma guerra sem propósitos, apenas para ver quem era o mais forte (2Re.14:8). Isso me faz pensar em pastores e líderes de hoje que organizam grandes reuniões e concentrações, sem propósitos, apenas para verificar seu poder de liderança. Jeoás estava vendo o seu reino enfraquecido e andava imerso em problemas internos. O que menos ele desejava naquele momento era uma guerra contra seu povo irmão. Jeoás exortou Amazias a voltar ao bom senso e se acalmar. Como viu que não o demovia do seu intento, não teve outra alternativa a não ser enfrentar essa guerra sem finalidade. No cômputo final, Deus lhe deu uma grande vitória, humilhando assim a soberba infundada do Amazias. Este, humilhado perante seus súditos, por tê-los lançado a uma perda desnecessária de milhares de vidas, viveu ainda 15 anos totalmente envergonhado, sem autoridade e por fim perseguido e morto por seus contemporâneos (2Re.14:17-21).

Podemos resumir o reinado de Amazias em três etapas: 1) um início humilde, buscando estabilizar o país, 2) uma curta época de glórias e vaidades, seguida de 3) um longo final de humilhação, vergonha e morte indigna. No cômputo geral a História ainda o classificou como um bom (razoável) rei. Perguntamos então: como pode um rei bom fazer o que ele fez e terminar seus dias tão mal?

Um ditado afirma que “o bom é inimigo do melhor” e outro diz que “de bem intencionados, o inferno está cheio”. Ou seja, não adianta ser apenas crente morno, membro de igreja, se contentando em não ser frio. Ser “bonzinho” de igreja, apenas, não basta para Deus. Deus fala de vencedores, em lutas onde só um vence (1Co.9:24).

Tomamos para nós lições de Amazias, como entender que ser normalmente bom não é mais do que nossa obrigação e isso não gera galardão para nós. Como Amazias, nós também em apenas um ato impensado podemos colocar todo um ministério a perder e prejudicar milhares de vidas. Igualmente, também aprendemos que se alcançamos uma vitória, isso não nos qualifica para voos mais longos, mas antes devemos

agradecer a Deus por aquela vitória, atribuindo-lhe tão somente os méritos. Cuidado os líderes pregadores do triunfalismo que, ao verem seu templo lotado com 200 pessoas, se arrogam a profetizar conquistas maravilhosas, amarrando todos os demônios, conquistando o país, etc.

Aprendendo com Amazias ainda, devemos procurar perseverar até o fim, pois se mesmo tendo sido crentes bonzinhos, e até alcançado algumas vitórias na nossa vida cristã, poderemos chegar ao final de nossa vida “tendo corrido em vão” ou verificar que “nos esforçamos inutilmente” (Fl.2:15,16). Será muito triste para nós, ao final de nossa luta, vermos nossos edifícios se queimarem e toda nossa obra ser incendiada, perdendo tudo que fizemos (1Co.3:13). Você já conheceu grandes líderes que caíram?...

Devemos ter em mente a exortação do apóstolo Paulo: “Cada um veja como edifica...”. Se nossos olhos e nossa compreensão nos enganam, os irmãos ao nosso lado e nossos líderes podem muito nos ajudar. Deus sempre colocará pessoas sensatas ao nosso redor (Hb.10:25). Mesmo que nos ensoberbeçamos por causa de algum sucesso, haverá quem nos exorte a voltarmos à sensatez e à humildade. Eis mais um motivo para sempre se ter um “pai espiritual” ou um “pastor pessoal”. É na multidão de conselheiros que se acha a sabedoria.

Cuidado para não ser como Amazias!

 

Pr. Érico Rodolpho Bussinger

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